António Calçada, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Hispano-Portuguesa, analisa os desafios e as oportunidades do eixo ibérico num momento decisivo para a Europa 

Lisboa, 15 de outubro de 2025.- Com uma vasta experiência em relações internacionais e desenvolvimento empresarial, António Calçada defende o papel estratégico da Câmara como ponte entre Espanha e Portugal e como impulsionadora da cooperação económica no quadro europeu. Desempenha um papel fundamental de ponte entre os ecossistemas empresariais de Portugal e Espanha. A sua missão é facilitar a cooperação económica, promover a internacionalização das empresas e contribuir para uma agenda europeia comum que se traduza em planos concretos.

Que objetivos estratégicos definiu para si enquanto presidente?

Um dos principais objectivos é promover uma coordenação eficaz entre as câmaras de comércio europeias em Espanha, o que lhes permitirá enfrentar os desafios comuns com maior coerência. A Câmara trabalha para dar voz às reais necessidades do tecido empresarial, especialmente das PME e das microempresas, que enfrentam dificuldades específicas, nomeadamente nas zonas fronteiriças. O objetivo é facilitar soluções práticas e transformar a Câmara num facilitador de parcerias público-privadas, sem assumir funções executivas, mas com capacidade para exercer influência.

Nas últimas décadas, a relação comercial sofreu uma profunda transformação: passou de uma dinâmica distante para uma ligação fluida e quotidiana entre as pessoas e as empresas. A Espanha é hoje o principal cliente e fornecedor de Portugal, sendo a relação bilateral sólida quer em termos económicos, quer políticos. Embora haja espaço para melhorias, especialmente à escala dos projectos conjuntos e da cooperação em sectores estratégicos, a ligação entre os dois países está mais forte do que nunca.

Que setores têm maior potencial de crescimento conjunto?

Energia, logística e digitalização. Portugal e Espanha têm a capacidade de desempenhar um papel fundamental na independência energética europeia, graças aos seus recursos e posicionamento estratégico. Ambos os países se destacam também pelas suas infraestruturas portuárias e aeroportuárias, tornando-os portas de entrada para a Europa. A isto acresce o potencial da transformação digital, que pode melhorar a competitividade e a eficiência. Se ambos os países agirem com uma visão comum, poderão posicionar-se como um bloco forte dentro da União Europeia em áreas como a sustentabilidade, a defesa e a transição ecológica.

Que barreiras enfrentam as PME ao internacionalizarem-se?

As PME enfrentam frequentemente a falta de recursos, de conhecimentos jurídicos ou fiscais e a falta de redes locais nos mercados internacionais. Ao contrário das grandes empresas, não conseguem enfrentar o processo de internacionalização sozinhas. As Câmaras de Comércio podem preencher esta lacuna oferecendo consultoria, facilitando contactos, auxiliando na procura de talentos e apoiando a adaptação digital e sustentável. É também prioritário integrar os jovens talentos nestes processos para que participem ativamente na transformação empresarial e vejam as câmaras de comércio como aliadas.

Está preocupado com a incerteza global e com medidas como as tarifas?

Sim, porque a incerteza gera desconfiança, o que paralisa as decisões de investimento. Neste contexto, a Europa enfrenta uma encruzilhada estratégica. A única saída possível é uma agenda comum sólida, com liderança e capacidade de execução. As respostas proteccionistas, como as tarifas, podem ser tentadoras a curto prazo, mas acabam por ser prejudiciais para o comércio, a inovação e a competitividade.

Conseguiremos consolidar um mercado único europeu?

Dependerá das decisões que tomarmos hoje. A Europa conviveu durante muito tempo com vulnerabilidades como a dependência energética, a fragmentação regulatória e a falta de escala industrial. A guerra na Ucrânia evidenciou estas fragilidades. Agora é a oportunidade de gerir a Europa com uma visão estratégica e uma coordenação real. Sem uma ação decisiva, o continente corre o risco de perder relevância no panorama económico global.

Que mensagem daria a quem ainda não vê Portugal como um parceiro estratégico e vice-versa?

É tempo de criar campeões ibéricos. As capacidades combinadas de Portugal e Espanha podem gerar um bloco muito mais competitivo, com uma presença significativa em setores como a energia, as infraestruturas, a tecnologia, a agricultura e a mobilidade. Portugal pode ganhar escala com o apoio de Espanha, enquanto a Espanha pode alavancar a experiência portuguesa em mercados como a África lusófona. Se ambos os países actuarem como verdadeiros parceiros estratégicos, a Península Ibérica poderá tornar-se uma referência europeia e global.

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