Lisboa, 9 de setembro de 2024.- A abordagem tradicional da agricultura inteligente em Portugal contemplava o seguinte raciocínio: A Forbes explica que a produção mundial de alimentos tem que aumentar em 70% até ao ano 2050. Este aumento é necessário para fazer face ao crescimento mundial da população. Os métodos tradicionais de agricultura não são suficientes para atingir este objetivo. O sector agrícola enfrenta vários desafios:
- Baixas margens de lucro: A agricultura é um negócio que gera baixa margem de lucro. Por exemplo, numa exploração agrícola em que a margem de lucro seja de 5%, não existe qualquer lucro excedente para investir em novos métodos de cultivo.
- Risco: A agricultura pode ser muito arriscada. A exploração agrícola está exposta a flutuações dos preços das culturas que produz. A maioria dos agricultores pede grandes empréstimos para comprar sementes e equipamentos e o pagamento só é efetuado após o resultado das colheitas. Contudo, a colheita pode ser afetada pelo clima, por problemas fitossanitários ou pelo preço dos produtos agrícolas.
- Falta de conhecimento tecnológico: até aos últimos anos, a maioria dos agricultores não utilizavam tecnologia na sua atividade. A agricultura Inteligente pode melhorar os resultados do agricultor, no entanto, este terá que aprender a usar essa mesma tecnologia.
A Agricultura Inteligente ajuda o agricultor a operar com mais eficiência. Um produtor pode usar a tecnologia para otimizar o seu desempenho em cada processo e tomar decisões informadas sobre os seguintes custos:
- Compra de equipamento: Equipamento é uma despesa enorme para um produtor. O agricultor pode usar a Internet para encontrar as melhores ferramentas para satisfazer as suas necessidades (por exemplo, pode pesquisar on-line um determinado trator pelo número de modelo e localização geográfica).
- Rendimentos de culturas, o mapeamento do solo: É muito importante para um produtor analisar a forma como as suas terras são utilizadas. A tecnologia pode ajudar o agricultor a avaliar a quantidade de culturas que pode cultivar por hectare. Permite também que o agricultor possa mapear com exatidão qual o solo que deve ser usado para um tipo específico de cultura (mapeamento de solo).
- Fitossanidade: A Agricultura Inteligente pode ser usada para monitorizar a condição das plantas no campo. A tecnologia permite que o agricultor analise rapidamente a temperatura do ar, humidade e o teor de oxigénio. Pode tomar decisões sobre a quantidade de água a utilizar nas plantas. As ferramentas tecnológicas também permitem verificar se existem doenças nas plantas.
A agricultura inteligente, que integra tecnologia avançada
Segundo o agricultor António Bonito, Internet das Coisas (IoT), big data, e inteligência artificial (AI), representa uma evolução necessária e inevitável para o setor agrícola.
Para este especialista, em Portugal, um país com forte tradição agrícola, essa transformação é particularmente relevante para garantir a competitividade no mercado interno, europeu e mundial, bem como a adaptação às mudanças climáticas. No entanto, a implementação da agricultura inteligente no país enfrenta desafios significativos que no meu ponto de vista, necessitam serem abordados com urgência.
Portugal tem uma agricultura caracterizada por pequenas e médias explorações, muitas das quais familiares, que historicamente têm operado com recursos limitados e práticas tradicionais. Embora essas práticas sustentem a identidade cultural e produzam alimentos de alta qualidade, elas também representam em si, um obstáculo para a adoção de tecnologias mais avançadas.
Além disso, a média etária elevada dos agricultores portugueses é um fator que não pode ser ignorado. A resistência à mudança, comum em qualquer setor com uma população envelhecida, dificulta a aceitação de novas tecnologias. A falta de familiaridade com ferramentas digitais e a desconfiança em relação à tecnologia muitas vezes leva à inércia, perpetuando métodos de produção que são, em muitos casos, ineficientes e insustentáveis.
Há também que referir aquilo que podemos apelidar de barreiras tecnológicas e económicas, centrada naquilo que é a infraestrutura tecnológica dos territórios. Em muitas áreas rurais de Portugal, o acesso à internet de alta velocidade ainda é limitado. A agricultura inteligente depende fortemente da conectividade para monitorizar culturas, otimizar o uso de recursos e prever condições meteorológicas. Sem uma infraestrutura robusta, a implementação dessas tecnologias torna-se impraticável.
O custo inicial associado à implementação de tecnologias inteligentes nas explorações agrícolas, também é um obstáculo significativo. Sistemas de sensores, drones, e softwares especializados representam um investimento substancial, algo que muitos agricultores portugueses, com margens de lucro já apertadas, simplesmente não podem suportar. Mesmo com incentivos e apoio do governo, a adoção em larga escala ainda é um desafio, especialmente para os pequenos agricultores.